A banca de jornal parecia ser a solução para tudo na minha vida

Quando meu filho com Síndrome de Down nasceu, minha cabeça entrou em ebulição. Imagens de slides estudados na faculdade de Biomedicina. A nota 10 recebida pelo melhor cariótipo da trissomia do 21 feito pela turma. A sombra de tudo isto me indicava que eu estava sendo punida por por saber desenhar bem cariótipos de diversas síndromes, por vibrar com células ao microscópio. Um turbilhão de confusões se apossaram de mim.

Fui espectadora do meu próprio filme, no segundo dia de vida de nosso filho,quando aos recebermos a noticia de que tinha um problema cardiológico revelaram a meu marido que ele era Down.

Na noite de 18/04/1985, após 2 dias do nascimento do meu filho, com alta agendada pela manha seguinte, mesmo achando tudo estranho, mas sem confirmação de nada, foi assim que meu marido entrou em nosso quarto com olhos mareados e… Eu, num piscar de olhos, revi minhas aulas de genética me puniriam com as lembranças de cada momento delas! Foi a noite mais longa de minha vida!

Depois de conseguirmos contornar a avalanche que desabou em nossa vidas. Isto levou uns 20 dias. Retomamos com intensidade, de mangas arregaçadas para o que pudesse vir!

Dinâmica total, ávida por informações, que me desvendasse um rumo a seguir.
Fui em busca de terapias que pudessem ajudar sua estimulação e o seu desenvolvimento. Nos entregamos a este trabalho, nos envolvendo amplamente com tudo que tínhamos de informação. Terapias de estimulação e a busca por escolas inclusivas, passaram a ser nossos objetivos.

Até que um ano e meio depois, após passar por uma banca de revistas no caminho de volta pra casa… Eureka! Aí estava solução! Descobri o futuro de meu filho! Tudo parecia ter se resolvido num passe de mágica. O sorriso e a sensação de alívio por achar que havia descoberto futuro da vida dele me encheu de esperanças.

Pronto. Num relance de meu pensamento eu havia traçado rotas e metas, decidida e decidindo a vida de uma pessoa de menos de 2 anos de idade, atropelada por definições que buscasse de alguma forma, definir projetos meus, sem sequer me lembrar que meu filho era uma pessoa, que um dia teria desejos, vontades e escolhas.

Naquele momento, mesmo acreditando que se desenvolveria, e trabalhando muito para isso. Defini que seria diferente do homem adulto com Sindrome de Down que eu conhecera logo após seu nascimento. Naquele instante me senti realizada, com todas as soluções que pensava ter encontrada para o futuro de meu filho. Só me esqueci de lembrar o óbvio: meu filho é uma pessoa, tem um nome e não um rótulo! Seria ele quem um dia iria desenhar seu caminho e escolher a estrada que iria seguir.

Alguns anos se passaram, alguns amigos contaminados com minha ideia da Banca de Jornal realizaram a compra de 2 delas (que existem até hoje). A de meu filho eu nunca comprei.

A vida foi me direcionado, as oportunidades, os gostos e desejos de meu filho ocuparam o lugar de meus anseios minhas metas, e minhas realizações para dar lugar a suas buscas a suas necessidades vitais e a das suas realizações.

Uma coisa de cada vez, tudo a seu tempo até que o rótulo desapareceu, a banca de jornal sucumbiu e a mãe que traçara o futuro de seu filho com menos de dois anos de idade, compreendeu que dera a Luz a um menino que se tornou homem, com seus desejos, suas vontades e sua profissão.

Cláudio Aleoni Arruda, tenho orgulho de ser sua mãe!

Lisabeth Aleoni Arruda.

Caso tenha interesse, você pode se inscrever na nossa lista e ser notificado sobre as próximas publicações da categoria Síndrome de Down. Para isso, basta deixar seu e-mail no campo abaixo:

Lisabeth Aleoni Arruda criança e saúde

Lisabeth Aleoni Arruda é Biomédica e Mãe. Lisabeth compartilha as suas experiências de Mãe através da sua página no facebook chamada “Você Sabia…?“. Tem artigos publicados em revistas como Incluir, Sentidos, Unimed Paulistana e através de palestras “Papos com Mães” realizadas em entidades como Hospital Darcy Vargas, Espaço Pipa de Piracicaba, Emphatiae, entre outros.