Como prever as aptidões motoras da criança com Paralisia Cerebral?

As crianças com paralisia cerebral apresentam sequelas motoras, maiores ou menores, na dependência da extensão da lesão no sistema nervoso central.

Sabemos que a lesão no sistema nervoso central é estática, crônica e não progressiva, determinando distúrbios do movimento, coordenação motora, força e equilíbrio.

Sabemos também que as repercussões motoras musculoesqueléticas tem comportamento progressivo, pois a história natural dos músculos espásticos (hipertônicos) serve para o surgimento de encurtamentos e deformidades fixas das articulações que vão determinar a piora motora da criança. Isso não significa dizer que a lesão no sistema nervoso central piorou, significa apenas que as repercussões motoras esqueléticas pioram com o crescimento da criança.

Por que isso ocorre?

Sabemos que os músculos comprometidos pela espasticidade (hipertonia) não relaxam adequadamente e, por isso, tem uma velocidade de crescimento menor do que os ossos, gerando assim, encurtamentos musculares e o surgimento de deformidades com diminuição na amplitude de mobilidade das articulações.

A deformidade articular e a diminuição da amplitude de movimento articular terão repercussão negativa na locomoção da criança. É fato que os músculos espásticos, embora com tônus muscular aumentado, tem diminuição na força.

Com o crescimento da criança seu peso corporal também aumenta. A combinação desse ganho de peso corporal, com os músculos espásticos fracos e com as deformidades articulares, dificultam a sua locomoção, fazendo com que ocorra a piora do ponto de vista motor.

A criança com paralisia cerebral tem uma demora no ganho de aptidões motoras. Elas precisam ser estimuladas para que ganhem algumas aptidões e o limite desse ganho depende do grau de lesão do sistema nervoso central.

Podemos fazer um prognóstico motor para as crianças com paralisia cerebral. Por volta dos 6 anos de idade, a maioria das crianças com paralisia cerebral tem maturidade motora do sistema nervoso central, ou seja, suas aptidões motoras máximas foram atingidas. A partir deste momento, tendem a entrar numa fase de estabilidade motora, se tratadas adequadamente. Se não forem tratadas, tendem a apresentar piora motora progressiva, pelos motivos citados acima.

O prognóstico motor na paralisia cerebral é estabelecido pelo sistema de classificação motora funcional grosseira (GMFCS). Trata-se de uma classificação em 5 grupos (níveis) que tem por objetivo estabelecer o planejamento do tratamento ortopédico e as expectativas motoras futuras da criança em questão:

GMFCS 1 – São crianças que caminham independentes dentro e fora de casa. Sobem escada sem usar o corrimão, conseguem correr e pular mas tem leve comprometimento no equilíbrio, velocidade e coordenação.

GMFCS 2 – Também caminham independentes dentro e fora de casa, mas usam o corrimão para subir escadas, não correm ou pulam, têm dificuldade de caminhar em terrenos irregulares e inclinados.

GMFCS 3 – Caminham dentro e fora de casa com andadores ou muletas, desde que em terrenos planos. Usam cadeira de rodas manuais para deslocamentos de maiores distâncias fora de casa e em terrenos irregulares.

GMFCS 4 – São cadeirantes dentro de casa, na escola e na comunidade. Sustentam a cabeça e tem marcha apenas assistida (pelo fisioterapeuta ou cuidador), por pequenas distâncias.

GMFCS 5 – São cadeirantes, não sustentam a cabeça e tronco e tem grande comprometimento motor.

Cada grupo tem um comportamento estável ao longo do tempo, desde que a criança seja tratada adequadamente.

É importante saber que o tratamento ortopédico não consegue mudar o nível da classificação motora de cada criança, ou seja, uma vez que a criança seja classificada como nível 4, por exemplo (cadeirante), mesmo com todas as modalidades de tratamento existentes, a criança não passará a ser um nível 3 ou 2.

O objetivo do tratamento ortopédico é o de manter a criança dentro do seu nível motor ao longo do tempo e, com isso, impedindo a história natural de piora progressiva ao longo do tempo.

Portanto, nas crianças cadeirantes GMFCS 4 e 5 os objetivos do tratamento cirúrgico ortopédico são os de permitir a criança sentar bem na cadeira, proteger os quadris, mantendo-os congruentes, sem dor e com boa mobilidade, manter a coluna livre de deformidades permitindo um bom posicionamento do tronco para sentar na cadeira de rodas, corrigir deformidades dos pés para que usem órteses e calçados adequados e, se possível, permitir o ortostatismo terapêutico com extensores de joelho e órteses AFO.

Para as crianças com GMFCS 3, os objetivos são os de correção cirúrgica das deformidades em quadris, joelhos e pés com o intuito de preservar a capacidade de locomoção com andadores ou muletas pelo maior período de tempo possível, mesmo com o crescimento esquelético da criança.

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Dr. Maurício Rangel é formado em Medicina pela Faculdade Souza Marques (1994) e médico Ortopedista Pediátrico. Trabalha atualmente em consultórios com atendimento ambulatorial e cirurgias ortopédicas pediátricas eletivas. Especialista em diversas patologias musculoesqueléticas em crianças e adolescentes e cirurgias relacionadas.

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