Trabalho transdisciplinar: uma meta para equipe e família

Desde a suspeita e confirmação do quadro de TEA de nosso filho, uma de nossas maiores preocupações foi em montar a equipe que iria fazer seu acompanhamento. Nossa preocupação ia além de encontrar profissionais que fossem muito bons. O objetivo era encontrar profissionais que fossem muito bons juntos. Felizmente, tivemos a sorte de conseguir montar um time onde há disposição para a troca de experiências e informações sobre o andamento do caso do Bernardo, possibilitando a atuação transdisciplinar.

Segundo Piaget, apesar de todas se tratarem de formas possíveis de articulação entre disciplinas, um trabalho transdisciplinar é diferente de um trabalho inter ou multidisciplinar. Nesta última, recorremos a informações de várias matérias para estudar um determinado elemento, sem a preocupação de interligar as disciplinas entre si. Com relação à interdisplinaridade, esta pressupõe organização de conceitos compartilhados por várias disciplinas, de maneira a criar interação entre elas. Entretanto, apesar da articulação, permanecem os interesses próprios de cada área.

Porém, quando pensamos em transdisciplinaridade, a cooperação entre as disciplinas é tamanha que o resultado é a formação de um saber que é mais que a simples soma de conhecimentos e sim conhecimento novo. Há também horizontalidade dos saberes, o que significa que nenhuma área ou formação é considerada mais ou menos importante que as demais.

Relacionando isso às terapias e intervenções junto às crianças com TEA e suas famílias, quero dizer que os tratamentos não devem ser pensados de forma fragmentada ou isolada e sim que a partir da comunicação e articulação entre todos os atores envolvidos irá surgir este algo maior, que vai além e através das disciplinas. Não podemos pensar em intervenções isoladas simplesmente porque os avanços e as dificuldades não acontecem assim. Posso citar como exemplo a época em que Bernardo estava fazendo uma dieta alimentar rigorosa. Este fato, que seria teoricamente preocupação apenas da nutricionista, acabou por impactar o comportamento dele na escola, pois nosso filho ficava muito irritado no momento do lanche (tentando tomar o lanche dos colegas.). Até para avaliar uma questão alimentar foi importante ouvir os que outros profissionais tinham a dizer sobre o impacto disso nos avanços e no dia-a-dia.

Para facilitar tal troca, por sugestão de uma das terapeutas, criei um grupo no whatsapp para que todos terapeutas e professores do Bernardo possam alinhar as ações e interagir com facilidade entre si e com a família sempre que necessário.  A maioria dos profissionais foi aberta à idéia e aderiu. Tem sido uma experiência enriquecedora para os pais e acredito que para os profissionais também. Claro que, como mãe, procuro retribuir a boa vontade de todos não bombardeando o grupo diariamente com qualquer coisa que acontece na vida do nosso filho; afinal de contas, imaginem se todas as famílias fizessem o mesmo? De qualquer forma, a existência de um canal aberto para compartilhar as dúvidas e avanços se mostrou fundamental.

Penso ser essa uma questão também a ser considerada no momento de definir os profissionais que estarão à frente do tratamento. Além do conhecimento técnico, há a abertura para a troca de informações com os demais profissionais? Disposição para flexibilizar quando necessário de forma a garantir que as intervenções estejam alinhadas e com objetivos comuns? Maturidade de escutar sugestões sem melindres e sem levar sempre para o lado pessoal?

Não tenho dúvidas de que, tanto quanto o que é feito pelos profissionais dentro do consultório, a disposição de acesso que eles têm fora dele é fundamental para o trabalho e na contribuição para o desenvolvimento da criança. Para mim, se o terapeuta não demonstra interesse genuíno pelo desenvolvimento do meu filho, e ao invés disso, deixa transparecer que a questão ali é unicamente financeira, ele não é bom o suficiente. Independente do quão impecável seja sua formação.

Um grande abraço e até a próxima!

Caso tenha interesse, você pode se inscrever na nossa lista e ser notificado sobre as próximas publicações da categoria Autismo. Para isso, basta deixar seu e-mail no campo abaixo:

Érika Andrade @maternidadeazul

Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

Contato: maternidadeazul@gmail.com