Quais são as suas fontes de felicidade?

Recebi, de um grande amigo sem filhos, solteiro convicto e feliz, uma entrevista concedida pelo psicólogo Dan Gilbert (link aqui), na qual este, entre outras coisas, afirma que:

“As crianças são como a heroína; uma droga do prazer, mas que destrói todas as demais fontes de felicidade de uma pessoa, como a família e os amigos. Os pais param de fazer sexo, de sair com os amigos ou assistir a concertos. Muitas mães me dizem que seus filhos são a sua maior fonte de felicidade, e eu lhes digo que elas têm razão. Se você só tem uma fonte de felicidade, é claro que ela é a maior.”

Enfim, a primeira coisa que me ocorreu ao ler isso foi me perguntar se este psicólogo tem filhos, mas após o primeiro momento procurei fazer uma leitura menos apaixonada e mais racional e achei a colocação dele bastante pertinente.  

Meu filho sempre será a minha maior fonte de felicidade, mas cabe a mim cuidar para que ele não acabe por se tornar a única  e tampouco permitir que meus outros interesses sejam totalmente soterrados pela rotina exaustiva de ser mãe de uma criança que, por estar dentro do espectro do autismo, demanda mais cuidados, tempo e investimento que uma criança típica.

Tal tendência a transformar os filhos em única fonte de satisfação, como afirma Dan Gilbert, é algo real e, a partir do momento em que nos damos conta disso, devemos ter cuidado para não negligenciar completamente todas as outras áreas de nossas vidas, como hobbies e o próprio casamento.

Há um disse-me-disse no meio das mães de crianças com autismo onde se fala que tais mães experimentam um stress permanente equivalente ao de um soldado em combate e que 80% dos casais se separam após terem um filho diagnosticado com TEA. Não tenho a menor idéia se estes dados são reais, mas o fato é que é muito fácil entrar nessas estatísticas.

Se não nos policiarmos, facilmente seremos engolidos pelas questões inerentes às terapias, à correria do dia-a-dia e em tudo o que envolve a nova realidade do pós-diagnóstico de modo esquecer todo o resto que existe para além disso. Afinal, some-se a todas as preocupações com aquela criança um cansaço extremo, ansiedade, rotina extenuante e sobrecarga financeira. Apenas um desses fatores isolados já pode produzir estragos sérios na sanidade mental de alguém e nos mais sólidos relacionamentos. Imagine então o somatório de tudo isso com as outras questões que já eram motivo de atrito entre o casal antes do diagnóstico do filho.

Em contrapartida, observo que quando o casal consegue passar por isso e permanecer junto, a possibilidade de jogar tudo para o alto por qualquer bobagem depois é bem menor.

Para que os pais consigam manter sua individualidade é necessário que ambos entendam que os outros interesses do parceiro além da criação do filho precisam ser cultivados, mesmo que nunca voltem – e muitas vezes nem devem – a ter o espaço e a importância que já tiveram um dia… Mesmo assim, acredito que devem ser preservados, na medida do possível e sem que se perca de vista o principal.

Além disso, muitas vezes a manutenção de outros interesses não depende apenas dos pais para serem possíveis de acontecerem. Nestes casos, não custa esperar e torcer para que os familiares se solidarizem e se sensibilizem no sentido de serem disponíveis para eventualmente auxiliar nos cuidados com a criança, de modo a possibilitar aos pais alguns raros momentos sem a mesma.

Apesar de a responsabilidade (imensa) dos cuidados diários serem dos pais, é bom para todos quando a família se envolve o suficiente nos papéis de tios, avós, primos para além de posar juntos nas fotos de Natal e sim no sentido de poderem servir como apoio quando preciso. Afinal, aquela criança é filha de alguém, mas também é neta, sobrinha, prima etc… Quando todos se envolvem e se comprometem com o desenvolvimento dela, o ganho é geral.

Um grande abraço e até a próxima!

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

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