MATERNIDADE, DEFICIÊNCIA E RESILIÊNCIA

“E de repente, num dia qualquer, acordamos e percebemos que já podemos lidar com aquilo que julgávamos maior que nós mesmos. Não foram os abismos que diminuíram, mas nós que crescemos…”

– Fabíola Simões

Volta e meia, quando converso sobre a rotina de cuidados com meu filho é comum escutar algo no sentido de “não sei como você consegue.” Fato é que já faz mais de três anos desde o diagnóstico e quase nem me lembro mais de uma rotina de cuidados com ele que não envolvesse tantas atividades, profissionais, terapias e preocupações bem específicas. O que pode parecer algo do outro mundo para outros pais, para mim tornou-se rotina, natural. Não digo isso para subestimar as dificuldades de várias ordens sobre ter um filho com alguma deficiência, mas sim para falar sobre a própria capacidade de resiliência que tantos pais nem imaginam ter até que ela seja posta à prova.

Muitas vezes, os pais, quando colocados em contato com uma realidade totalmente diferente de tudo o que já foi vivenciado até então, podem menosprezar sua capacidade de adaptação e de exercer função protetiva com aquela criança em circunstância tão inesperada. Acredito firmemente que a grande maioria dos que dizem não saber como outros pais conseguem, também conseguiriam, caso precisassem.

Isso não muda o fato de que, muitas vezes, o primeiro impacto frente a essa nova realidade seja duvidar, ainda que por alguns minutos, da própria capacidade de prover toda a gama de cuidados que essa “nova” criança exige. Comigo não foi diferente e, durante o período de suspeitas e confirmação do diagnóstico de autismo do meu filho, lembro que uma das minhas maiores preocupações era com o fato de, se confirmado o diagnóstico, se eu “daria conta” disso. Tanto que falei expressamente com um dos médicos, na fase de investigação, que eu conseguiria lidar com um diagnóstico de surdez ou de hiperatividade, mas não com um de autismo. A resposta do médico foi certeira: Eu iria dar conta sim, pelo simples fato de que esta era minha única opção.

É lugar comum falar em termos de “do luto à luta”, mas o que observo no contato com os pais em situações semelhantes é que a paternidade/maternidade atípica pode se tornar uma experiência capaz de trazer à tona nossas melhores tendências enquanto pais que talvez, em outras circunstâncias, não precisariam ser tão desenvolvidas. É uma experiência que pode fazer surgir, além de pais extremamente dedicados, militantes, pesquisadores, defensores capazes de contribuir com a causa de diversas formas que vão muito além dos muros de suas casas.

O que tenho a dizer aos pais que acabaram de receber a notícia de que o filho possui alguma condição especial, transtorno ou deficiência é: Busque a ajuda que julgar necessária, que pode ser através das redes de apoio familiares, grupos de pais, acompanhamento médico psicológico etc, mas não subestime sua capacidade de conseguir lidar com isso antes do que pode conseguir imaginar.

Olhar no fundo dos olhos de seu filho e ver nele ao mesmo tempo você mesmo e algo totalmente estranho, e então desenvolver uma ligação fervorosa com cada aspecto dele, é alcançar a desenvoltura da paternidade egocêntrica, mas altruísta.

É incrível a frequência com que essa reciprocidade é alcançada — com que frequência pais que supunham que não poderiam cuidar de uma criança excepcional descobrem que podem. A predisposição para o amor dos pais prevalece na mais penosa das circunstâncias. Há mais imaginação no mundo do que se poderia pensar.

Andrew Solomon

Um grande abraço e até a próxima!

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

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