Relação médico x paciente

A gravidez do Bernardo foi muito planejada e desejada por mim e meu marido e seguiu sem complicações. Após o nascimento dele, o único fato que não ocorreu como esperávamos foi eu não ter leite. Tentei de tudo! Bombinhas manuais, elétricas… Ficava com aquele troço ligado no meu peito uns 40 minutos pelo menos três vezes ao dia e, somando o que tinha saído nos dois lados, eu tinha no máximo uns 10 ml. Foi frustrante. Não demorou até que o próprio pediatra me orientasse a desistir e introduzir fórmulas infantis.

Querer amamentar e não conseguir não é algo fácil para uma mãe de primeira viagem, além disso também é muito ruim quando as pessoas, ao invés de ajudarem, atrapalham. Quando o Bernardo tinha cerca de dois meses, já ouvi de uma mulher que havia acabado de conhecer – que por sinal era pediatra – que ela estava penalizada por meu filho tomar mamadeira, que se eu me esforçasse DE VERDADE o leite sairia. Como assim, você não sabe nem o nome da pessoa e acha que pode saber se ela está tentando de verdade amamentar ou não? Nessas horas eu mato o meu marido (que é um gentleman) de vergonha, porque o coice sai na hora!

O tempo passou, Bernardo cresceu e a suspeita do autismo veio. Quando o levamos ao seu primeiro otorrino, depois de cinco minutos de tentativas de examinar a criança e antes de qualquer exame, o médico já estava conversando conosco sobre surdez e implante coclear! Quando nós, os pais, dissemos acreditar que ele escutava, fomos totalmente desacreditados. Escrevi sobre isso no texto Autismo ou Surdez (link). Como se não bastasse, o médico afirmou que se nosso filho ainda não se comunicava verbalmente, a responsabilidade era nossa por não termos percebido a suposta surdez e tomado as providências para providenciar o implante bem mais cedo. Saímos da consulta totalmente destruídos, nos sentindo negligentes. Detalhe: A audição dele é normal e isso foi confirmado mais tarde.   

Dei esses exemplos para ilustrar que esta tendência em culpar os pais (especialmente a mãe) sobre algo que não está acontecendo como deveria no que diz respeito a uma criança não parte apenas da população leiga, também é uma mentalidade comum nos profissionais da área da saúde. É aquele pediatra que supõe de imediato que, se há algum atraso na fala deve ser obviamente porque a criança não está sendo estimulada em casa. Ou não dá importância a algum dado novo que a mãe trouxe sobre o filho, afinal “ela não é médica e não sabe do que está falando”. Ou que conclui que se a criança apresenta interesses estereotipados, restritos e repetitivos deve ser porque os pais não oferecem outras coisas que possam despertar o interesse do filho. Ou que se a criança não está se socializando de acordo com o que seria esperado na escola, os pais deveriam mudar a criança de instituição, tendo em vista que a professora não deve executar bem o seu trabalho. Não estou dizendo que tais coisas não acontecem: Há pais que não estimulam e professores ruins. O problema é a falta de interesse em escutar a família e o excesso de pré-julgamentos morais que, muitas vezes, não são fundamentados.

No meu texto anterior a esse falei sobre autismo regressivo (link) (que no nosso caso foi “regressivo”, tendo em vista que as características do autismo já existiam e apenas não estavam tão evidentes) e fiquei impressionada com os comentários das mães que foram quase que exclusivamente no sentido de relatar um sentimento de culpa que as corrói diariamente! Muitas vezes, ao procurar profissionais que teoricamente iriam prestar alguma ajuda nesse sentido, o efeito dos atendimentos é absolutamente o contrário.

Quando o acompanhamento com determinado profissional (médico, psicólogo ou outro terapeuta) causa mais malefícios do que benefícios, acontece o que chamamos de Iatrogenia. Isso não diz respeito apenas de diagnóstico equivocado ou prescrição inadequada de remédios, mas sim também do estabelecimento de uma relação que passa a ser tóxica, devendo assim ser interrompida. Os pais não devem colocar nenhum profissional no lugar de saber tão inquestionável que não permita perceber quando as coisas se tornam totalmente inadequadas ou correm o risco de, por exemplo, pensar em implantes cocleares para crianças ouvintes.  

Um grande abraço e até a próxima!

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

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