Autismo Regressivo e a Culpa dos Pais

Autismo regressivo é o termo usado para dizer da condição de determinada criança que teria alcançado os marcos adequados de desenvolvimento até determinada idade (geralmente por volta de 18 meses) e após algum acontecimento, teria supostamente “entrado no espectro.” Quando o gatilho é ambiental, a criança pode regredir após algum acontecimento marcante em sua vida tal como mudança de cidade, de professor ou até uma viagem dos pais. Alguns pais relatam que tal mudança brusca no comportamento do filho ocorreu após o mesmo ter tomado determinada vacina. Este é um tema controverso e sobre o qual a única coisa que tenho a dizer é que meu filho está com o cartão de vacinação em dia pois, em última instância, eu prefiro correr o risco de uma perda de habilidades ao risco de ele contrair alguma doença letal, mas esta é uma decisão pessoal e nem será o foco deste texto.

Voltando ao autismo regressivo… Quando pensamos que havia “desenvolvimento típico” até determinado acontecimento, podemos ficar com a impressão de que se, caso determinado fato não houvesse ocorrido, o quadro de autismo do filho poderia ser evitado. Tal raciocínio equivocado, para os pais, pode ser massacrante.

Bernardo entrou em uma determinada escola com um ano e quatro meses e a experiência ruim fez com que as características do TEA ficassem evidentes a ponto de chamarem a nossa atenção. Por muito tempo acreditei piamente que, antes disso, o desenvolvimento dele era realmente típico.

Hoje percebo claramente que o acontecimento evidenciou muito algumas características dele, entretanto, outras já estavam lá e nós simplesmente não tínhamos nos dado conta até aquele momento. Perceber que, mesmo sutil, já havia algo desde sempre, tranquiliza os pais e tira o peso de passarem a vida se martirizando com questões do tipo “Se eu não tivesse matriculado nesta escola, se não tivesse feito aquela viagem, se não tivesse demitido tal babá… as coisas seriam diferentes e o fulano não seria considerado autista.” Sinceramente? Provavelmente, quando há uma propensão grande, se o quadro não se evidenciar com determinado gatilho, será com outro.  

Felizmente, não demorou muito até eu perceber isso: Hoje, quando assisto aos vídeos do Bernardo bebezinho, consigo ver características do TEA desde muito antes da escola. O que mais me marcou foi perceber que o apego inadequado a objetos sempre aconteceu. Olhando fotos tiradas em época anterior à ida dele pra escola em várias o Bê está segurando canudos… Lembrei que antes de descobrir os canudos, desde bebê ele tinha apego às colheres de medida que vinham dentro das latas de leite. Às vezes dormia agarrado com elas. Depois, as trocou pelos canudos, que em um momento foram trocados por canetas, que foram trocadas pelos talheres, posteriormente por dinossauros, guardanapos… etc.

Consigo ver a defesa tátil que ele já apresentava desde pequeno, pois desde recém-nascido eu só conseguia cortar suas unhas se ele estivesse dormindo. Os fatos de não atender ao nome, agir como se fosse surdo e parecer não sentir dor ou não ter noção do perigo também vinham desde bem antes da ida dele àquela escola.

Perceber isso me deu conforto. Já existiam sinais e uma predisposição que eram anteriores à nossa decisão de matriculá-lo em determinado estabelecimento e que, em algum momento, iriam se evidenciar.  Há um vídeo esclarecedor  do dr Walter Camargos Júnior, psiquiatra infantil, sobre sinais de autismo em bebês que pode auxiliar os pais a se atentarem aos sinais de alerta: (Clique no Link ou veja ao final do texto).

Caso alguma mãe ou pai estiver lendo isso e se identifique com tal sentimento de culpa por pensarem que poderiam ter “evitado” algo, acreditem que esta é uma fase difícil, mas passa. Pelo menos, é o que deveria acontecer. Caso esta fase não passe, não tenha o menor pudor em procurar ajuda. Para cuidar do seu filho, antes de tudo, você tem que cuidar de você e estar bem. Quem cuida também precisa ser cuidado.  Apenas recomendo sabedoria na escolha dos profissionais, estando muito atento à abordagem seguida por eles. Há muita oferta de desserviço no mercado e a tendência é só aumentar. Afinal, à medida que crescem os números de pessoas sendo diagnosticadas com TEA, aumenta também o número de profissionais que vêem este ramo como um filão e querem apenas enriquecer e fazer fama às custas das famílias, muitas vezes sem se prepararem e estudarem o suficiente para terem condições de ofertar um bom serviço.

No início é comum que os pais fiquem vulneráveis e com mais dificuldades em unir força e discernimento para ler nas entrelinhas o que dizem determinadas teorias, principalmente aquelas que focam apenas em vinculação mãe e bebê, sugerindo, na maior delicadeza, que os pais poderiam ter evitado uma questão que também é genética e neurológica.  

Sugiro aos pais que estudem muito sobre o assunto e se empoderem o quanto antes, para que as chances de caírem em mãos erradas sejam diminuídas.

Um grande abraço e até a próxima!

 

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

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