Sobre os pais que não ajudam as mães

Sempre escuto: “Seu marido é ótimo, ele te ajuda muito com o Bernardo.” Este texto é para esclarecer: ele não me ajuda. Ele é o pai e tem tanta responsabilidade quanto eu. Falar em termos de “ajuda” pressupõe que as tarefas e responsabilidades são minhas e ele, por ser muito camarada, me dá uma força. As coisas não são assim, felizmente tanto eu quanto meu marido sabemos disso e não é surpresa que eu tenha me casado com ele considerando o exemplo que tive em casa.

Ao mesmo tempo em que não gosto desse discurso de “ajuda”, nem de transformar em heroísmo algo que deveria ser o comum e o natural, sei que sou abençoada, pois infelizmente nem de longe são todos os pais que vivem a paternidade tão intensamente quanto a maioria das mulheres vive a experiência de ser mãe. Preciso reconhecer que essa união e parceria influenciam direta e positivamente o resultado de todos os esforços que fazemos visando o desenvolvimento do Bernardo.

Em uma situação típica, cuidar de uma criança já requer tempo, dinheiro e investimentos de várias ordens e quando falamos de cuidados de uma criança com alguma condição atípica como o autismo, realmente é mais trabalhoso: Levar e buscar para terapias todos os dias da semana, preparação de uma comida especial quando a criança segue alguma dieta, dificuldade de participar de programações que para outros pais são consideradas simples, preocupação constante com o custo das terapias… É uma situação em que definitivamente não podemos pensar em um dos pais sozinho assumir a grande maioria dos cuidados e das responsabilidades enquanto o outro entra na parte mais “fácil” ou assume o papel de mero colaborador. Também é comum quando um dos genitores assume todas as responsabilidades dos cuidados com a criança e critica o outro em toda a iniciativa deixando claro que “ele não faria tão bem quanto eu”, “só eu sei cuidar dele”, ou coisas do tipo. Posteriormente, quando o outro se sente desmotivado em tentar tantas vezes e sentir que nada foi bom o suficiente e pára de ter iniciativa, o crítico de plantão reclama por estar tão sobrecarregado. Lembrando que a divisão de responsabilidades não está associada aos pais serem ou não um casal, pois a relação de cada um com o filho independe disso.

Claro que não há uma cartilha ou receita de bolo que possa ensinar como seria essa negociação entre os pais, mesmo porque tais questões de gênero estão arraigadas em nossa cultura e não serão desconstruídas de um dia para o outro. De qualquer forma, é inegável que quando há uma parceria saudável para os cuidados com uma criança que demanda muito, estes se darão de forma mais tranqüila do que quando ficam a cargo apenas de uma pessoa. Mesmo porque, uma pessoa extremamente cansada, estafada e que vive em estado constante de pressão e estresse terá dificuldades de ser um bom pai ou uma boa mãe mesmo que as vinte e quatro horas de seu dia sejam dedicadas a isso.

Visando a alcançar um ideal de responsabilidade compartilhada entre os genitores, devemos repensar a forma com que os cuidados com as crianças pequenas são feitos. Por isso, quando me perguntam se meu marido me ajuda, a resposta é: não. Ele não é meu ajudante. Ele é um excelente pai!

Um grande abraço e até a próxima!

Caso tenha interesse, você pode se inscrever gratuitamente na nossa lista e ser notificado sobre as próximas publicações da categoria Autismo. Para isso, basta clicar no botão abaixo e deixar seu e-mail.

Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

Contato: maternidadeazul@gmail.com