Sobre empoderamento dos pais

Durante as primeiras sessões com uma das terapeutas do Bernardo, em uma época que eu estava muito fragilizada (início das intervenções, diagnóstico recente etc), lembro que ela me alertou para uma questão importante: Algo como “escutar a todos e não escutar ninguém”. Não de uma forma irresponsável, mas no sentido de não esquecer que eu sou mãe e a minha opinião, meu sentimento e minha intuição com relação ao Bernardo importam, sempre. E que por mais gabaritado que algum profissional seja, a mãe sou eu e vou seguir meu coração.  Afinal, os profissionais sabem mais de autismo do que eu, mas eu sei mais sobre meu filho do que eles. Isso é fato. Eles podem ser especialistas em autismo, mas adivinhem quem é a grande especialista em Bernardo? Pois é. A partir daquele momento, não perdi isso de vista e me recusei a colocar alguma teoria ou profissional “X” ou “Y” nesse lugar de saber inquestionável. Escuto o que todos têm a dizer, mas filtro o que serve para nós.

Alguns dos meus melhores amigos são psicanalistas ferrenhos e desaprovam algumas de minhas escolhas com relação ao acompanhamento do Bernardo. Entretanto, acho graça quando vou questionar alguns pontos da psicanálise e escuto coisas como “Mas quem disse isso são professores da USP”, como se este fato fosse o suficiente para que eu aceitasse tudo o que viesse de determinada pessoa sem uma postura crítica, principalmente no que diz respeito a intervenções que não julgo adequadas para atuação junto a crianças com autismo. Entretanto, apesar de, definitivamente a psicanálise não ser a minha escolha, não me refiro unicamente a ela.

Já ouvi propostas de intervenção para os pais, vindas de psicólogos cognitivos comportamentais (que é abordagem escolhida por nós para nortear o acompanhamento do Bernardo), que avaliei como insustentáveis. Sinceramente não sei até que ponto uma massacrante “terapeutização” que às vezes é colocada para os pais como “a única forma de o seu filho se desenvolver” é válida, saudável, e se o risco de acabar por se perder a espontaneidade na relação é algo que vale a pena. Esta não é a perspectiva dos psicólogos que atendem o Bernardo, mas infelizmente é a de muitos por aí.

Por essas e outras, penso que os pais não devem acompanhar de forma passiva as decisões de uma equipe e simplesmente acatá-las se por algum motivo não concordar com elas. Eles podem e devem participar dos processos de decisão, que podem ser sobre avaliar a necessidade de um profissional de apoio na escola; ponderar sobre a alimentação; pensar junto sobre qual seria um bom momento para tentar iniciar um processo de desfralde; avaliar o quanto de treinos formais é realmente possível ser feito em casa etc. Penso que isso só é um problema quando se tratam de profissionais inseguros. Quando não é o caso, todos ganham e é essa a nossa experiência.

O fundamental é que exista entre os pais e a equipe confiança para se ter este tipo de conversa e que mesmo após os pais terem formado o “time” que irá acompanhar o filho, eles se mantenham seguros para, quando julgarem necessário; discordar das sugestões, propor ideias diferentes, mudar de terapeutas… Caso o profissional apresente grande resistência em receber questionamentos ou qualquer espécie de feedbacks ou não dê aberturas para os pais terem com ele conversas nesse sentido, talvez caiba repensar a permanência dessa pessoa na equipe. Os profissionais fazem as sugestões com base em todo estudo e preparação que possuem para tal, mas quem possui condições de filtrar o que está funcionando e sendo válido dentro da rotina da família naquele momento são os pais. Por este motivo, eles não devem ser expectadores da condução do tratamento do filho, e sim se empoderar e assumir o lugar de protagonistas deste processo, juntamente com a equipe.

Quando digo empoderamento, me refiro à família que, após buscar informações sobre serviços, legislação e diferentes abordagens existentes, passam a ter segurança nas suas decisões e conseguem refletir e elaborar estratégias que facilitem e tornem viável a rotina familiar. Quem sabe, deste processo até surja a necessidade de militar ou fazer alguma espécie de movimento social pela causa.

Que os pais não subestimem suas percepções, convicções e poder de decisão. Que saibam escutar, ponderar, considerar e ainda assim não terceirizar o momento de bater o martelo.

Um grande abraço e até a próxima!

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

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