Crises em público e a preocupação com o outro

Desde que meu filho foi diagnosticado com autismo, tomei a decisão de não escondê-lo em casa. Apesar das dificuldades em estar com ele em certos ambientes, acredito que ele só poderá aprender a se comportar nos ambientes sociais freqüentados pelos pais, se tais ambientes forem por ele frequentados. Falei sobre isso no post “não esconder os filhos em casa”

Até momento, Bernardo não apresentou estereotipias motoras (stims) e isso faz com que sua condição não fique tão evidente em um primeiro momento, tendo em vista que as estereotipias motoras em muitos casos costumam “denunciar” o autismo. Sendo assim, como sua peculiaridade não é tão facilmente identificável, o primeiro impulso da maioria das pessoas quando topam com qualquer comportamento não usual vindo do meu filho, é já taxa-lo por mal educado ou mimado (não que uma coisa exclua a outra, mas me esforço para educá-lo bem). Como não poderia deixar de ser, há algumas situações nas quais ele acaba por virar o centro das atenções, como por exemplo, no momento do corte dos cabelos, que o desorganiza bastante devido à defensividade tátil, sobre a qual também falei no texto Disfunção Sensorial. Esta é a hora em que, pelo fato de o Bê realmente fazer um escândalo, eu e meu marido mais recebemos olhares atravessados que podem ser percebidos como: “Que menino escandaloso, mimado… Ah se fosse meu filho…”  

Com relação a ambientes e situações que os pais sabem que deixam os filhos estressados e sujeitos a algum tipo de crise, a primeira coisa que pergunto é se realmente é necessário que a criança vá a tal ambiente ou se isso pode ser evitado. O corte de cabelo do Bernardo, por exemplo, é algo que entendemos como impassível de ser negociado, apesar de todo o stress que este momento causa.

Outra questão que pode desencadear crise e muita irritação em crianças com TEA são decorrentes de variações na rotina. Antecipar a rotina e as alterações significativas na mesma, facilita que a ansiedade da criança seja diminuída e contribui para  aceitação dela às novidades.

O que avalio como principal em momentos que a criança se desorganiza é vencer a tendência de simplesmente fazê-la se calar a qualquer preço, pelo constrangimento da situação. Ao invés de focar no incômodo que a criança pode estar causando a terceiros, foque na própria criança. Procure, dentro do possível, passar segurança a ela naquele momento, se blindando de olhares e comentários maldosos. Se os pais desorganizam junto com o filho, aí sim o caos será instalado.  Sei que não é fácil, mas com o tempo vai ficando cada vez mais natural e menos difícil.

 

Um grande abraço e até a próxima!

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

Contato: maternidadeazul@gmail.com