Comunicação X Compreensão

Neste texto vou tratar sobre um tema que me incomoda profundamente: O pressuposto do qual muitas pessoas partem, que diz respeito a julgar a capacidade de compreensão de uma criança pelas suas habilidades (ou ausência delas) de comunicação.

É terrível admitir isso, mas, na época em que havia dúvidas acerca da normalidade da audição do Bernardo, eu também já falei sobre ele (principalmente em consultas médicas) como se ele não estivesse bem do meu lado… E estava.

 Nesse início conturbado, as dúvidas não eram exclusivamente sobre audição. Eram também sobre sua capacidade de compreensão. Não demorou para que percebêssemos que esta também sempre esteve preservada. Se por um lado isso trouxe um grande alívio, por outro exigiu mudanças na forma de nos relacionar com nosso filho.

Minha ficha sobre isso caiu quando fomos visitar uma pessoa idosa, que já estava fisicamente debilitada e praticamente havia parado de falar. Eu observava que os parentes, na presença dela, reclamavam sem parar dos cuidados que esta demandava. Basicamente ficavam reiterando o quanto ela era um fardo. Isso me incomodou profundamente. Minha vontade era gritar: Gente, pelo amor de Deus, ela não fala, mas escuta e entende, que falta de respeito!!!

E foi aí que me dei conta: O mesmo acontecia em minha casa, com meu filho. Ele ainda não falava, mas escutava e entendia… E nós o estávamos desrespeitando. A partir daí fiquei muito cuidadosa para que isso não acontecesse mais. Porém, este não foi um processo natural, e sim algo que demandou cuidado e treino de nossa parte.  Não era raro que nós falássemos, ao lado do Bê, coisas do tipo: “Despista ele” aí pra ele não me ver saindo. 

“Despistar” como se ele acabou de ouvir e entender o que foi dito?

A partir do momento em que a gente se dispõe a mudar a forma de se comunicar, é preciso praticar e ter paciência, inclusive com nós mesmos. O que devemos manter em vista é que capacidade de compreender e de se comunicar podem ser (e é comum que sejam) discrepantes e não devemos tentar medir uma pela outra. Vou dar alguns exemplos:

Houve uma situação onde eu e meu marido estávamos conversando sobre um familiar ao lado do Bernardo. Em algum momento meu esposo disse: A fulana, do jeito que está, quando cair em uma depressão, não irá mais sair. Parecia que Bernardo estava totalmente alheio à conversa, quando ele olhou pra gente e começou a falar: Buraco, buraco!! Ou seja, ele estava escutando e compreendendo tudo (mesmo que a compreensão tenha sido literal, no sentido de que se a pessoa iria cair em algum lugar, deveria ser em um buraco.)

Outra ocorrência foi o dia em que Bernardo de repente cantou uma música inteira que nós nunca havíamos cantado para ele. Em conversa com a professora, ela informou que esta era uma música (“O Sapo”, da Eliana) que ela cantava para os alunos, mas que, até o momento, Bernardo não tinha demonstrado nenhum interesse pela canção. A professora até então acreditava que ele nem prestava atenção. Pois bem, um belo dia ele nos surpreendeu com a música completa, o que foi emocionante. E isso se repetiu depois com outras canções como “O cravo brigou com a rosa.”

Dei esses exemplos para provocar reflexão com relação a esse cuidado sobre o que é dito. Afinal, da mesma forma que o Bê mostrou depois de semanas que ele não estava alheio e compreendia a música que a professora cantou; ele teria compreendido também se, ao invés de cantar, ela tivesse dito palavras totalmente inadequadas e grosseiras sobre ele no sentido de “ele não dá conta”, “ele não entende” pensando que o Bê não estava atento e mesmo que estivesse não iria conseguir compreender, de qualquer forma.

É óbvio que na maioria das vezes esse “falar do lado da criança como se ela não estivesse ali” não é feito de propósito ou com intenção de magoá-la, mas não é menos grave por causa disso.  Por isso, assim que nós, pais, nos damos conta do desrespeito que é com nossos filhos, temos obrigação de corrigir imediatamente nosso comportamento e orientar as pessoas que com eles convivem.

Infelizmente é comum que as pessoas ajam dessa forma, em especial com as crianças não verbais, o que me dá arrepios considerando o quanto isso pode ser nocivo. Não presuma que a criança não respondeu por que não entendeu. Converse sobre ela partindo do princípio que a compreensão e a atenção estão ali, mesmo que a linguagem ainda não esteja. Oriente as pessoas sobre isso de modo a que sua criança possa viver em um ambiente de respeito e cuidado que farão toda a diferença na vida e no desenvolvimento dela.

Um grande abraço e até a próxima!

Caso tenha interesse, você pode se inscrever na nossa lista e ser notificado sobre as próximas publicações da categoria Autismo. Para isso, basta deixar seu e-mail no campo abaixo:

Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

Contato: maternidadeazul@gmail.com