Sobre compartilhar
UM DESABAFO MATERNO SOBRE COMPARTILHAR BRINQUEDOS

Gosto muito de um polêmico texto que a página Just Real Moms postou chamado “Por que você não deve ensinar seu filho a compartilhar.” (link aqui)

Toda criança vira e mexe quer o brinquedo do coleguinha, tenta levar algum objeto que não é dela para casa, etc. Pode ser que em alguma situação específica, se tratando de crianças no espectro autista, tais momentos acabem em crise ou desorganização da criança, mas de forma geral observo que a irritação diz da frustração que acomete tanto as crianças típicas quanto aquelas com autismo.  

Uma das terapeutas do Bê me disse algo que levei para a vida, que o nosso trabalho é tentar aumentar a flexibilidade do Bernardo, e não de tentar enrijecer o ambiente para que este se adeque à rigidez do nosso filho.

Se tratando de pais de crianças no espectro, é comum que estes pensem que todas as outras pessoas devem fazer concessões o tempo todo pelo fato do filho “ter autismo”, opinião da qual não compartilho.  Quem me conhece sabe que jamais eu iria assumir uma postura de vitimismo e pensar que os pais dos coleguinhas devem arrancar os brinquedos das mãos dos próprios filhos toda vez que o meu insinua que os quer, pois isso é “ser legal” ou por o meu ser uma espécie de coitadinho, coisa que ele não é.

Claro que, em algumas situações bem específicas (leia-se, envolvendo dinossauros, pois este é o maior interesse do Bê), se torna muito difícil para nós negociar e agradeço de coração aos pais que, por empatia, percebem que seria mais fácil negociar com os próprios filhos do que eu negociar com o meu e cedem. Isso é exceção e não a regra.

Via de regra, tento negociar em qualquer dos lados que eu estiver e, quando a criança não quer emprestar, digo para o meu filho: “Eu sei que você quer, mas não é seu e o coleguinha não quer emprestar.” Isso é feito sem um pingo de dramas. Essa cultura de “tem que emprestar”, “tem que ceder, pois isso é ser legal”, nem sempre passa coisas, a meu ver, positivas.

Precisamos ensinar generosidade e desapego? Certamente! Mas também devemos ensinar a esperar, a aceitar que nem tudo é como se quer, que o mundo não gira em torno do nosso umbigo e principalmente, tolerância à frustração.

No entanto, quando é o meu filho o que não quer emprestar, alguns pais me olham totalmente horrorizadas por eu manter essa postura.  Em primeiro lugar, não me considero egoísta ou que esteja educando meu filho para tal. Egoísmo é esperar que os outros façam por você o que você não está disposto a fazer por eles, e eu não espero.

Outra coisa, pelo que observo, as crianças atualmente precisam desenvolver muito mais a tolerância à frustração de receber um não do que a habilidade de emprestar brinquedos. Essa criança que cresce sem ouvir um “não”, que acha que os outros devem abrir mão do que estão fazendo simplesmente porque “ela quer”, “na hora que ele quer”, quando crescer vai saber escutar um “não”, vindo de uma namorada? Vai lidar bem com o fato de não ser selecionado para determinado emprego?

No caso específico do meu filho, sabendo que alguns interesses dele beiram à fixação, toda vez que saio de casa levo uma mochila lotada de brinquedos! Com os preferidos dele e com outros, já contando com o fato de que alguma criança vai querer brincar com ele. Ou seja, levo, além de brinquedos para ele, também para os filhos das outras pessoas, onde quer que eu vá.

Entretanto, não é raro que Bê esteja ali com aquele dinossauro de plástico, velho, horroroso, mas que é o seu preferido e, mesmo após eu ofertar vários outros, o coleguinha insista em brincar justamente com aquele.  Ok, crianças são assim, sempre querem o brinquedo dos colegas, afinal a grama do vizinho sempre é mais verde. Meu filho também é assim.

O que me incomoda é o fato de que alguns pais não tentam sequer explicar para os respectivos filhos o fato de que o brinquedo não é dele, além de fingir que não estão vendo quando suas crianças tomam os brinquedos das mãos das menores. Sei que não é fácil e acreditem quando digo que é muito mais difícil para pais de crianças com autismo. Algumas mães já me falaram: “Meu filho quer esse. Fala pra ele que o seu filho é bonzinho e vai emprestar”.

Desculpem-me, mas eu jamais iria desencadear uma crise no meu filho arrancando o dinossauro preferido e inseparável dele apenas para “fazer um social.” Tais mães me obrigam a virar para suas crianças e dizer, da mesma forma que digo para o meu: “Sei que você quer, mas não é seu. E ele não quer emprestar.” Querem saber? TODAS as crianças com as quais conversei assim entenderam, ao passo em que todas as mães me olharam com cara de ódio. No final das contas, qual das mães estava ensinando ao filho a ter comportamento egoísta, mesmo?  

Um grande abraço e até a próxima!

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

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