Autismo e Intervenção Precoce

Meu nome é Érika, sou psicóloga e mãe do Bernardo. Claro, não necessariamente nessa ordem… Bernardo tem três anos e é o japonesinho mais lindo do mundo!  Ama escutar músicas, dançar, dinossauros, livros… E foi diagnosticado como autista aos dois anos de idade. Pensando no dia mundial da conscientização sobre o autismo, que se aproxima, aceitei o convite para dividir um pouco sobre a nossa trajetória e talvez ajudar as famílias que estejam naquela fase que antecede o diagnóstico, que é marcada por muitas dúvidas e angústias.

É comum as pessoas pensarem que, por eu ser psicóloga, tenha tido uma “bagagem” sobre esse assunto, o que não é verdade. Formei-me em 2004 e, naquela época, a atenção dada à temática foi quase que zero.  Espero sinceramente que, desde então muita coisa tenha mudado e que as academias deêm mais atenção ao estudo do tema. Além disso, minha área de atuação na psicologia é totalmente diferente.

Apesar disso, fui eu quem notou antes de todos os outros que algo não estava bem com nosso filho. Bernardo apresentava desenvolvimento típico até a idade de um ano e quatro meses, quando comecei em um novo emprego e ele foi matriculado às pressas em uma escola onde ficava no horário integral. A experiência nessa escola foi um divisor de águas para todos nós, foi o gatilho. Nosso filho regrediu e perdeu habilidades, o que jamais deve ser desconsiderado pelos pais.

Bernardo parou de falar as palavrinhas que outrora dizia, a rejeitar a alimentação que antes aceitava e ficou bem menos sociável. Além disso, comecei a observar outras características que me deixaram alerta, como o não atendimento dele ao nome ou a comandos, pouco contato visual, interesse por poucas pessoas, parecer não sentir dor ao machucar, ausência de medo ou noção de perigo e uso instrumental dos outros. Foi aí que chamei meu marido para “aquela” conversa. Felizmente, ele não achou que eu estava louca. Naquele momento, foi o único. Mais tarde, minha percepção foi confirmada pelos especialistas. Mas até lá foi um longo e extenuante caminho em busca de respostas.

Há um imaginário popular sobre o autismo que na grande maioria das vezes não corresponde à realidade das pessoas com o transtorno. Por isso acredito que, num primeiro momento, com exceção do meu marido Rogério, todos com quem eu falava descartavam a minha suspeita.  Afinal, nesta época Bernardo não ficava em um canto balançando para frente e para trás; não tinha o hábito enfileirar os objetos e brinquedos; não comia alimentos apenas de uma textura ou apresentava alguma seletividade alimentar significativa; não cheirava os alimentos antes de comer; não se incomodava com barulhos como liquidificador ou batedeira; não ficava estressado com mudanças na rotina; não tinha interesse exagerado em objetos que rodam; nunca foi uma criança apática; sempre teve coordenação motora excelente; é extremamente carinhoso com as pessoas escolhidas por ele etc. Ou seja, em nada parecia com o estereótipo que as pessoas costumam ter de uma criança autista.  

Muitas crianças com o transtorno fazem uma ou várias das coisas que relatei acima, mas há tantas realidades e condições diferentes dentro do mesmo diagnóstico…  Não podemos falar em “autismo”, mas em “autismos”, pois são tantos! Por isso, atualmente falamos em espectro, que é um conceito que reflete a ampla gama de desafios, nível de comprometimento, potencialidades e peculiaridades das pessoas autistas.

Quando essa visão estereotipada de “o que é ser autista” vem do senso comum e da população leiga, apesar de não ser o ideal, é tolerável. O inaceitável é ver que esse desconhecimento muitas vezes atinge os médicos e demais profissionais da saúde. Apesar de em minha formação praticamente o autismo não ter sido estudado, ainda assim considero que ser psicóloga me ajudou a perceber os sinais. Se eu não fosse uma profissional da área de saúde e não tivesse me atentado a coisas que iam além do óbvio, sabe-se lá quando o Bernardo iria começar a ter acesso às intervenções apropriadas e necessárias.

Quantas crianças seguem aí, sem as terapias e os respectivos pais seguem sem orientação por desconhecimento da classe médica de uma forma geral? Continuam sem oferecer ao filho acompanhamentos especializados porque os familiares e os profissionais acham que determinados comportamentos (ou ausência dos mesmos) dizem respeito “ao jeito dele”, “ao momento dele”, “ao tempo dele”… E o quanto essa ausência de intervenções pode comprometer o desenvolvimento futuro da criança em questão? Se eu puder deixar um conselho é: Na dúvida, não espere. Tome uma atitude! Quanto antes a criança tiver acesso a intervenções de qualidade e especializadas, melhor!

Estarei sempre neste espaço para dividir e trocar experiências com outros pais.

Beijos e até a próxima!

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

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