Autismo, comunicação e uso instrumental dos adultos

Quando pensamos em diagnóstico precoce de autismo, corremos o risco de nos atentar a determinados comportamentos considerados comuns a indivíduos no espectro (como estereotipias motoras e atrasos na linguagem) e deixar de perceber uma série de sutilezas que também são importantes. É necessário ter atenção e disposição para enxergar além do óbvio. Falei sobre isso em meu texto “autismo e intervenção precoce, quando ressaltei que não devemos falar em autismo e sim em autismos, dada a grande diversidade do espectro.

Até meu filho começar, com cerca de um ano e meio, a usar adultos como ferramenta, eu observava as outras características dele que me causavam algum estranhamento naquela época e me perguntava “será?”, quando pensava na possibilidade do autismo. Mas, a primeira vez que ele me puxou pela mãozinha e me levou até o objeto que ele queria, meu coração gelou.  Torci para esse comportamento não se repetir, mas se repetiu a ponto de ser tornar um padrão de comportamento.

Observei que havia a utilização dos pais como ferramenta para que ele alcançasse o que desejava. Por exemplo: quando meu filho queria determinado objeto que estivesse fora de seu alcance, ao invés de tentar pedir através de gestos ou ensaiando alguma palavra, o fazia mediante uso instrumental dos pais, usando nossas mãos como extensão de seu próprio corpo e levando-as até o objeto de interesse.

Neste período, perguntei à sua professora como ele fazia quando queria algum objeto e a resposta foi: “Bernardo nos puxa pela mão e leva até o que ele quer.”

Eu já sabia que tal “relação instrumental com o outro” era característica comum nos indivíduos com autismo e, unindo isso a todas as outras várias características que meu filho apresentava, só precisei somar 2+2 e começar a busca por uma equipe especializada para que as intervenções fossem iniciadas o quanto antes.

Para que nosso filho substituísse tal forma de comunicação por outras mais adequadas, fomos orientados pelos profissionais competentes, que pensaram em formas de criarmos mais oportunidades de aprendizagem e aumento do repertório de respostas do Bernardo às diversas atividades do dia a dia. Obviamente, havia o cuidado de adequar as expectativas ao desenvolvimento dele em cada etapa.

Assim, não demorou até que o uso instrumental dos adultos fosse substituído pelo gesto de apontar e, posteriormente, pela fala.

Cabe ressaltar o fato de que, o hábito de usar os adultos como ferramenta foi determinante para perceber o quadro clínico do meu filho porque estava dentro de um contexto, associado a várias outras questões. A criança pode ter esse hábito e isso não significar nada de preocupante, caso não esteja relacionado a outros comportamentos-problemas ou atrasos no desenvolvimento. Episódios ou características isolados não são suficientes para que seja detectado algum transtorno ou desenvolvimento atípico. De qualquer forma, a observação de vários detalhes aparentemente sem importância, podem ser decisivos para alguma constatação nesse sentido.

De acordo com o DSM-V, para haver um diagnóstico de autismo, é necessária a existência de déficits na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse ou atividades. Tais sintomas devem estar presentes desde as primeiras etapas do desenvolvimento da criança. (Fonte: www.dsm5.org )

Um grande abraço e até a próxima!

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Érika Andrade, mãe do Bernardo, Psicóloga e administradora do instagram @maternidadeazul.

Contato: maternidadeazul@gmail.com